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A Espuma dos Dias
1. Os jornalistas habituaram--se a classificar os acontecimentos que apaixonam de momento as pessoas - e que servem para as grandes manchetes - mas que passam rápido, como verdadeiros faits divers, que não deixam de ser como a "espuma dos dias". Dá-se-lhes, em cada momento, uma importância que não têm, e passam depressa, atropelados por outros que se lhes seguem. Daí a importância que tem, na política e na imprensa, a distinção lúcida entre o acessório e o fundamental. O acessório esvai- -se, como a espuma dos dias. O fundamental fica, é o que conta, interessa e o que marca as pessoas, o que tem a ver com as suas vidas e o seu futuro.

Vem isto a propósito da campanha, de rara violência, que tem vindo a ser feita, sabe-se lá por quem, divulgada à saciedade pela comunicação social, contra o actual primeiro-ministro. Os pretextos sucedem-se, como as acusações, mas até agora nada se conseguiu provar, apesar de haver, eventualmente, Magistrados e agentes judiciários que as alimentam, através de fugas ilegais, mas, pelos vistos, inconsistentes, como denunciaram o desassombrado bastonário da Ordem dos Advogados ou o prof. António Barreto. O País não está convencido, como sondagens recentes demonstram. Com que objectivo se fazem, então? Na tentativa de enfraquecer ou mesmo derrubar um Governo que há tão pouco tempo foi relegitimado pelo voto popular? Mas, nessa hipótese, por quem seria substituído e com que programa alternativo? Ninguém pode responder. O que é particularmente grave num momento tão delicado de crise global como aquele que o nosso País atravessa…

São perguntas, confesso, para que não encontro respostas válidas. Que me ultrapassam e, penso, também às pessoas comuns e sensatas que as fazem. Sobretudo, não entendo os líderes dos partidos da oposição - que presumo serem pessoas inteligentes e informadas - que corroboram esses ataques, sem os poderem provar. Não compreenderão que isso os diminui, necessariamente, no "tribunal" da opinião pública, que é o que mais conta em democracia?...

O que é, então, para mim - e para os portugueses comuns - o essencial, na tão complexa conjuntura de crise global que o País atravessa? Respondo sem hesitações: o essencial é definir e pôr em execução uma estratégia eficaz para lutar contra o desemprego, a pobreza (que se está a agravar), a precariedade do trabalho, sobretudo para os jovens, as profundas desigualdades sociais, que nos estão a tornar um País mais injusto e desumano, no quadro europeu.

Atenção, senhores governantes: esta é a primeira prioridade, ao contrário do que dizem os economistas tradicionais, em parte responsáveis pela crise que nos aflige. Porquê? Para defendermos a coesão social, indispensável à governabilidade e ao bom funcionamento da democracia. Para nos prevenirmos e evitarmos os conflitos e as revoltas sociais, como as que estão a ocorrer, sintomaticamente, na Grécia.

Só depois vem a segunda prioridade: reduzir, paulatinamente, o deficit e o endividamento do Estado, das empresas e das famílias, até 2014. Não conheço ainda, quando escrevo, o Programa de Estabilidade e Convergência discutido e aprovado pelo Governo no sábado passado, mas que só vai começar a ser debatido na semana que agora entra - e esperemos seja depois aprovado e apresentado em Bruxelas. Confiemos ainda que os especuladores financeiros não invistam contra nós. A maneira como a União, como tal, tem vindo a tentar lutar contra a crise, em ordem dispersa - onde só os Estados grandes têm voz, em especial a Alemanha - sem um plano de conjunto, que nos obrigue a todos, volta-se a prazo contra a própria União. Como tem vindo a suceder com a moeda comum, o euro, que, como se sabe, tem estado em dificuldades…

Note-se que Portugal não tem razões para ter complexos de inferioridade em relação aos seus parceiros europeus. Pelo contrário. Sempre fomos um parceiro cumpridor e empenhado. Sempre quisemos fazer avançar o projecto europeu. Mas, atenção, em 1985, a nossa adesão à CEE foi decisiva para vencermos o choque da descolonização e do desenvolvimento, que a jovem democracia necessitava. Hoje somos um país diferente, estruturado, com outros recursos e provas dadas no plano internacional e europeu. Não temos razões para complexos.

Economistas distintos, como Joseph Stiglitz - Prémio Nobel e autor de livros célebres, como A Grande Desilusão, Quando o Capitalismo Perde a Cabeça e Um Outro Mundo - acaba de publicar em francês O Triunfo da Cobiça, em que denuncia a "financiarização da economia", que por mera avidez do lucro fácil é incapaz de mudar o modelo de crescimento, de renunciar aos paraísos fiscais e aos negócios virtuais e de voltar às regras éticas - hoje abandonadas - que tanto contribuíram para o sucesso do capitalismo no passado.

A União Europeia vai mal. Toda a gente o sabe. Está em risco de perder o lugar que lhe é devido na cena internacional. Mesmo os países chamados grandes - como a Alemanha, o Reino Unido, a França, a Itália e a Espanha - com lideranças desprestigiadas e sem visão global, começam a sentir o terreno fugir- -lhes debaixo dos pés… Mas esse é outro problema, que, noutra altura, importa examinar, país a país, detalhadamente…

Serve apenas para sublinhar que Portugal não deve obedecer cegamente às ordens "economicistas" do Banco Central Europeu. Deve privilegiar o social e o ambiental, sem esquecer a redução do deficit e do endividamento público. Mas por esta ordem. O País não toleraria que voltássemos à redução do deficit, sem mais, apertando ainda mais o cinto aos que estão - ou para lá caminham - no limiar da pobreza, deixando engordar os magnatas e os especuladores. Ou, ainda pior: esquecendo propositada- mente os que foram os responsáveis da crise, deixando-os, até hoje, impunes…

2. Europa: orgulho e desilusão. Quando, em Junho de 1985 - onze anos após a Revolução dos Cravos -, com a aventura do PREC, o trauma da descolonização, 800 mil retornados, que tivemos de assimilar, e duas crises económico-financeiras que ultrapassámos, em 1978 e em 1983, aderimos finalmente à CEE, no mesmo dia em que a Espanha, fizemo-lo com imenso orgulho e total confiança. Porquê? Porque a Europa Ocidental, constituída então, apenas, por dez países, estava dividida ainda pela Cortina de Ferro e era a nossa grande referência política e moral. Era um projecto em desenvolvimento: de paz, de democracia e de bem-estar para o conjunto da sua população. Era o que queríamos, tanto Espanha como Portugal, saídos de duas prolongadas e retrógradas ditaduras de tipo fascista. Para recuperarmos o prestígio internacional perdido e um desenvolvimento sustentado, que beneficiasse, por igual, as nossas populações tão martirizadas. Os países da CEE receberam-nos, aliás, de braços abertos e com grande solidariedade. As lideranças europeias eram então de primeira ordem e de grande prestígio mundial.

Cinco anos depois, deu-se a queda do Muro de Berlim e da Cortina de Ferro, logo seguidas do colapso da URSS e do comunismo. Anos de esperança! Em 1992, pelo Tratado de Maastricht, a CEE transformou-se em União Europeia, dando um passo político de grande significado em termos da construção europeia. E começou a pensar - como era lógico - no alargamento aos países chamados do Leste Europeu. Era a resposta lógica europeia à queda do comunismo.

A América do Norte, vencedora incontestável da "guerra fria", sem tiros, tornou-se a hiperpotência dominante, como se autoclassificou: o "império do bem". Mas, ao contrário do que julgava, era vulnerável. O 11 de Setembro de 2001 demonstrou-o. O terrorismo islâmico foi um fenómeno, ainda hoje não completamente estudado, que se afirmou de um momento para o outro. A América reagiu mal, quando tinha a solidariedade do mundo inteiro. Declarou "guerra" ao terrorismo - mitificando o nome de Ben Laden - e lançou-se em duas guerras impossíveis (no Afeganistão e no Iraque), que ainda duram e cujas saídas são problemáticas… A Europa, aliás, também não reagiu bem: em vez de se opor como um todo, dividiu-se. Honra ao presidente Jacques Chirac e ao chanceler Schröeder! Blair, Aznar e Durão Barroso, pelo contrário, acolheram nos Açores Bush e a sua decisão de atacar o Iraque. Ficaram com o estigma dessa imensa responsabilidade…

Em fins de 2007 princípios de 2008 deu-se a crise global do capitalismo especulativo, dito de casino, que, começando na América, se espalhou na Europa e em pouco tempo por todo o mundo. Enquanto a América gastava milhões em guerras inúteis e sem resultados, a China ia comprando os títulos de Tesouro do Estado Americano… O unilateralismo americano foi substituído pelo aparecimento dos Estados emergentes e o mundo tornou--se multilateral. Assim estamos!

E a Europa? Conta hoje 27 Estados membros, aprovou, finalmente, o Tratado de Lisboa, mas politicamente continua paralisada. Não soube reagir à crise como um todo. Os seus líderes não perceberam - ou não quiseram perceber - que para ultrapassar a crise é preciso um novo modelo político, económico, social e ambiental.

A Europa representa um pouco mais de 500 milhões de cidadãos, com o mais alto nível de vida do mundo, com instrução, conhecimentos e tecnologias de grande qualidade. Mas, apesar disso, está a perder prestígio e conta relativamente pouco na cena internacional. Como ficou claro em Copenhaga. Porquê? Porque não consegue definir uma política e uma estratégia europeia comum. Como devia. Os Estados Unidos da Europa - objectivo dos Pais Fundadores - esvaiu-se numa miragem… Os grandes Estados membros ainda não quiseram entender que é a União que pode contar no mundo e não eles individualmente considerados e demasiado pequenos para isso. Mesmo a Alemanha, o maior e mais poderoso, economicamente, de todos.

É possível ultrapassar a paralisia europeia? Espero que sim. Às vezes, a necessidade obriga. Mas vai ser difícil. É por isso que gostaria que Portugal - com ideias claras para a Europa e para o futuro da Europa - se possível em convergência com Espanha, fosse capaz de lançar um conjunto de ideias coerentes para ajudar a Europa a sair da sua apatia nostálgica e a retomar o papel mundial a que tem jus, em associação estrita com a América de Obama. Era útil para o Ocidente e para o mundo.
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